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As três fases da greve dos caminhoneiros

A paralisação dos transportadores de cargas rodoviárias por duas semanas está custando caro à economia brasileira. Aqui, não entramos no mérito da greve, que sim, teve fortes motivos para ser desencadeada, vamos falar apenas do cenário que ela estabeleceu no país.

A primeira delas foi a crise:  as duas semanas do mês de maio foram as que impactaram diretamente toda a sociedade. A economia foi surpreendida pela estagnação quase total da logística. E interromper esse fluxo significa que a produção não sai e não chega a lugar nenhum. Não demorou faltar combustíveis, alimentos perecíveis e insumos de todas as naturezas. Não precisamos nos alongar para explicar os danos uma vez que todos vivemos intensamente esse período.

A segunda fase foi o choque: classificamos o mês de junho como o primeiro abatimento pós greve. A sociedade percebeu que não bastava a liberação das estradas para que tudo fosse normalizado. Os alimentos continuaram com preços elevados e se criou um bastidor de prejuízos que ainda não poderiam ser dimensionados. Muito mais que apenas o tempo perdido, muitos produtos deixaram de ser produzidos e consequentemente deixaram de ser vendidos no mês de junho. Podemos dizer que junho foi o mês para olhar para a destruição deixada pela greve.

A terceira fase chamamos de impacto: a mais longa, entendemos que se estenderá até o mês de setembro. Até lá não será possível olhar para os resultados e índices econômicos sem considerar a paralisação de maio. Acreditamos que será o tempo necessário para que a economia se desvencilhe dos efeitos pós greve. Neste período a produção será normalizada, os insumos deverão voltar aos preços de equilíbrio e será possível ter um cenário econômico menos atribulado.

Gráfico: A Greve dos caminhoneiros e seus impactos nos índices de preços IPCA e IGP-M

O que esperar de 2016?

Lucas Lautert Dezordi: doutor em Economia e sócio da Valuup Consoltoria

Sem sombra de dúvidas, 2015 será marcado como um dos piores anos de nossa história recente, no que se refere à capacidade de geração de renda, emprego e riqueza. Como consequência, as expectativas dos agentes de mercado em relação ao futuro da economia brasileira foram gradativamente se deteriorando, tanto para este ano como para 2016. Este breve artigo apresenta o comportamento de quatro variáveis importantes as quais merecem um acompanhamento constante. Como fonte de análise, utilizamos as informações sobre o mercado através da Pesquisa Focus do Banco Central do Brasil, em um período de 01/01/2015 a 20/11/2015. Vamos começar pela produção.

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Expectativas do PIB

 

O mercado financeiro, em janeiro de 2015, esperava um crescimento do PIB para 2015 e 2016, respectivamente, na ordem de 0,5% e 1,8%. Os últimos dados da pesquisa indicam que teremos uma forte recessão no período, principalmente pelo fraco desempenho dos setores da Indústria e Serviços.

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Expectativas do IPCA

 

Aliado ao medíocre crescimento da renda, nossa economia vem registrando um preocupante processo inflacionário. As expectativas do IPCA subiram de 6,57% para 10,33% para 2015, conforme Gráfico 2. Certamente, essa inflação muito elevada em 2015 irá contaminar os preços em 2016. As informações mais atuais sobre as expetativas do IPCA para 2016 indicam uma taxa acima do limite superior de 6,50%. Ou seja, o Banco Central está com muita dificuldade em combater a forte escalada de preços.

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Expectativas do Câmbio

 

A consequência natural de economias com fortes processos inflacionários é a geração de uma forte pressão sobre a taxa de câmbio. O Gráfico 3 indica que o mercado estimava, em janeiro de 2015, uma taxa de câmbio para 2015 e 2016 em torno de R$ 2,90. Esse cenário foi se deteriorando e prejudicando o controle inflacionário. Atualmente, é praticamente consenso que a economia brasileira vai operar, no ano de 2016, com uma taxa de câmbio acima dos R$ 4,00.

É claro que teremos um quadro mais interessante para as exportações e uma melhora na balança comercial e nas contas externas. Contudo, pela pressão inflacionária que o câmbio exerce nos preços domésticos, torna-se claro que a taxa de juros Selic deverá ser mantida em patamares elevados, em torno de 14% ao ano, em 2016.

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Expectativas do Déficit Público

 

Consideramos que o problema mais grave da economia brasileira seja o atual e esperado desequilíbrio fiscal. O Gráfico 4 destaca essa questão. No início de 2015, esperava-se que a partir do ajuste fiscal, o Governo Consolidado (estados, municípios, BC, estatais e governo central) fosse registrar um déficit público de cerca de 5,0% em 2015 e 4,0% em 2016. Entretanto, com a dificuldade em aprovar as medidas de ajuste no Congresso Nacional, esse cenário foi se deteriorando. Atualmente, o mercado financeiro está extremamente pessimista em relação às contas públicas. As expectativas indicam um déficit público na ordem de 9,5% para 2015 e 7,8% para 2016. Ou seja, extremamente elevados.

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A partir de uma breve análise desses quatros indicadores, temos a convicção que 2016 será um ano tão difícil quanto seu antecessor. A economia ainda apresentará um quadro recessivo, com fortes pressões inflacionárias. E, enquanto as questões fiscais não forem amenizadas, as expectativas dos agentes econômicos continuarão se deteriorando.